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segunda-feira, agosto 18, 2008

Breve percurso das séries de animação em Portugal: Pioneiros

I – Os Pioneiros

Em Portugal a produção de séries de cinema de animação inicia-se nos anos 70 com o surgimento dos pequenos clips musicais televisivos, que assinalavam o final da emissão para o público infantil. Eram geralmente canções de embalar com uma letra divertida e acessível, “A Família Pituxa” e “Boa Noite, Vitinho!”, entre outros. É possível que este género de série de animação tenha sido “importado” de França, uma vez que me 1964 é exibida na televisão francesa a série “Le Manège Enchanté” da autoria Serge Danot, que segundo Rui Pedro Vieira (2005) “chegou também à Grã-Bretanha, com a estação BBC a transmitir diariamente um episódio ao início da noite”. Este tipo de exibição tornou-se popular na Europa e a vizinha Espanha não foi excepção, em 1965 é criada por José Luís Moro a “Família Telerín”, protagonista dos clips musicais espanhóis.
Em 1971 surge em Portugal a “Família Pituxa” que exibe notórias referências à espanhola “Família Telerín” e às personagens da série francesa “Le Manège Enchanté”. As personagens femininas apresentam semelhanças nas três séries, exibindo um lacinho na cabeça. O cão da “Família Pituxa” é uma clara homenagem ao Pollux francês, a Joana portuguesa deixa fugir o seu pijama da mesma forma que a Cleo espanhola e o bebé Pelé encontra o seu homónimo no bebé Cuquín.
Estas referências podem ser justificadas pela proximidade dos realizadores portugueses com os realizadores espanhóis, uma vez que Artur Correia e Ricardo Neto, fundadores do estúdio Topefilme, trabalharam em Espanha no estúdio Telecine-Moro, de Santiago e Luís Moro, realizadores da “Família Telerín”.
O tema deste tipo de séries de clips musicais é recorrente: marcar a hora de os mais novos se deitarem, e cada episódio é exibido durante um certo período de tempo que varia entre meses e anos. Quando a validade do episódio expira ele é substituído por outro, onde as personagens se mantêm.
Em Portugal, sstas séries eram encomendadas pela RTP (televisão pública portuguesa) e produzidas em estúdios de animação diversos. O tempo de exibição deste tipo de série variava substancialmente, dependendo, na maior parte das vezes do seu sucesso junto do público infantil. A série “O Patinho”, realizada por Rui Cardoso e produzida pelos estúdios da Animanostra em 1999/2001, é o exemplo mais recente e mediático, tendo alcançado um enorme sucesso. Segundo Humberto Santana (2003) “a rentabilidade [da série] foi de um para cem, investiu-se mil e ganhou-se mais de cem mil”. No entanto a série seria retirada do ar após os responsáveis de programação da RTP considerarem que “mandar as crianças para a cama é perder audiência” [Santana:2003]. Apesar deste contratempo em terras nacionais, o filme do patinho alcançou uma boa aceitação a nível internacional, tendo o Museu do Audiovisual de Nova Iorque adquirido uma cópia do filme para que a mesma configurasse dos seus arquivos.

A estas séries de clips musicais segue-se aquela que podemos considerar como sendo a primeira série temática portuguesa, “Contos Tradicionais Portugueses”, realizada por Artur Correia e Ricardo Neto na Topefilme, entre 1974 e 1977. A série exibida na RTP, e apoiada financeiramente pelo Instituto Português do Cinema, apresentava vários episódios de 8 minutos cada, onde os contos tradicionais portugueses como o “Caldo de Pedra”[1] ou “Os dez Anõezinhos da Tia Verde Água”, eram apresentados, não só aos mais novos, mas aos adultos também, tendo corrido todo o país, “em salas de cinema, em casas do povo, agremiações”. Artur Correia (2003) diz “ tal foi o sucesso, tantas as cópias tiradas, que se estragou um negativo, e foi feito um novo negativo a partir de uma cópia nossa [de Artur Correia e Ricardo Neto]”. Segue-se aos “Contos Tradicionais Portugueses” a série “O Ouriço-Cacheiro”, realizada também por Artur Correia e Ricardo Neto na Topefilme entre 1979 e 1989, tendo sido exibida na RTP. A série destinava-se ao público infantil e relatava as várias peripécias de um ouriço e seus companheiros em 9 episódios de 8 minutos cada. Escrita por Maria Alberta Meneres, esta foi uma série cronológica de intervalo popular na altura, tendo obtido, segundo Ricardo Neto, o primeiro lugar num festival que premiava a qualidade dos filmes dedicados ao público infantil. A encerrar aquele a que podemos chamar de primeiro período da produção de séries de animação temos a série “O Romance da Raposa” realizada por Artur Correia e Ricardo Neto na Topefilme entre 1987 e 1988. De toda a produção balizada entre 1970 e 1988, a série “O Romance da Raposa”, uma adaptação do romance de Aquilino Ribeiro, é a mais longa e elaborada, sendo constituída por treze episódios de treze minutos cada, apresentando no seu total 169 minutos, sendo a primeira série de grande envergadura produzida em território nacional. O sucesso que alcançou fez-se sentir não só a nível nacional, mas a nível internacional, tendo sido exibida em várias televisões internacionais, nomeadamente na Europa do Leste. Ainda hoje é possível encontrar várias referências a esta série na Web, nos fóruns sobre séries infantis ou desenhos animados, sejam eles nacionais ou internacionais[2].

Ainda durante este período podemos assinalar dois casos isolados, o primeiro referente a um episódio produzido em Portugal, pela Topefilme em co-produção com a Corona Cinematográfica, no ano de 1974, com o objectivo de participar num projecto europeu que consistia num conjunto de episódios reunidos sobre o tema “Série Favolística Europeia” e que se intitulava “Lenda do Mar Tenebroso”. Este episódio, realizado por Ricardo Neto tinha a duração total de doze minutos e marcou, segundo ele “a primeira presença portuguesa internacional a nível europeu, num conjunto de curtas-metragens de animação de diferentes estúdios da Europa.” [Neto:2003].

O segundo caso está relacionado com a realização de um episódio piloto para uma série, que não chegou a ser concretizada. O episódio intitulava-se “Patilhas e Ventoinha em o Caso da mosca TV” e tinha sido realizado por Artur Correia e Ricardo Neto, tendo a duração de um minuto. No entanto, por falta de apoio financeiro a série acabou por não se realizar.





[1] Este episódio foi seleccionado para o Festival Internacional Lucca em 1976 e para o Festival Internacional de Zagreb em 1978.

[2] É possível encontrar várias referências nacionais e internacionais à série na Web: www.mistériojuvenil.com (Portugal);

www.alambiquezz.blogspot.com (Portugal)

www.youtube.com/AnimacaoPortuguesa (Portugal)

www.memorabilia.blog.hr (Hungria);

http://static.wikipedia.org/new/wikipedia/hr/articles/l/i/s/Lisica_Sko%C4%8Dibarica_6143.html (Hungria)

segunda-feira, julho 17, 2006

"His Master's Voice" - Animação ou não?

No livro "História do Cinema Português de Animação - Contributos", podemos encontrar uma referência a este anúncio. Esta referência, questiona no entanto, se o pequeno anúncio seria ou não animado. Facto que a confirmar, faria de "His Master's Voice" [1], de Luís Nunes, o primeiro "filme" animado português.
Acontece que a única fonte de informação relativa a este filme é Luís Nunes, o seu realizador, que, numa entrevista, publicada no suplemento "Vida" N.º 3 do semanário INDEPENDENTE, ano 1, N.º 25, de 4 de Novembro de 1988 afirma:

"Fiz esse filme para os cinemas de Lisboa, vendi-o para Inglaterra e acabei por perder o quinto ano do liceu. Fui para a China, fui para a Rússia, para toda a parte. Enquanto durou o dinheiro, nunca mais voltei aqui a Portugal. Tinha era que arranjar sempre uma pessoa que depois me acompanhasse em viagem, porque eu era menor. E pagava aquilo tudo! Foi tanto o dinheiro que recebi que fazia isso!"

As afirmações de Luís Nunes são curiosas. Não deixa de ser estranho que o"primeiro filme publicitário internacional" fosse realizado em Portugal por um miúdo com treze anos de idade, e as afirmações seguintes parecem-me, no minímo, exageradas...
Para comprovar então a existência do filme, consultámos o prontuário de José Matos-Cruz. De facto o filme é mencionado no prontuário, mas acresce de uma chamada que refere que a data e os elementos foram referenciados por Luís Nunes. Parece que entramos num beco sem saída...
Consultei então Paulo Cambraia [2], historiador de cinema de animação português, que por sua vez já tinha consultado outros dois historiadores/investigadores: José Matos-Cruz [2] e Fátima Marques [2].
Temos então a mesma opinião de três pessoas diferentes:

Segundo J.Matos-Cruz tratou-se de um filme publicitário, constando apenas a animação no "packshot" [3].
Temos assim, que seria um filme de imagem real.

Segundo a Fátima Marques, tratou-se de um filme imagem real, que no final apresentava a imagem de um cão a olhar um gramofone, de onde saia a voz do dono. Neste packshot, a boca do cão abria e fechava.

Segundo Paulo Cambraia, o anúncio não deve ser qualificado como animação, uma vez que a "suposta" animação surge apenas no final do filme de imagem real, limitando-se à abertura e fecho da boca do cão.
Reserva ainda algumas dúvidas quanto ao realizador do filme, afirmando que "Luís Nunes, eventualmente terá feito a boca mexer".

Não existindo material fílmico para o provar, podemos então concluir que "His Master's Voice" é um filme publicitário de imagem real, onde figura no plano final, uma "tímida" animação da boca do cachorro.
O filme não deve assim ser confundido com uma animação, no verdadeiro sentido da palavra.
Estes factos reforçam o legitimidade de "O Pesadelo de António Maria" como primeiro filme de desenhos animados português.

[1] A 11 de Fevereiro de 1899 Barraud regista o quadro "Dog looking at and listening to a Phonograph", que mais tarde viria a alterar o nome para "His Master's Voice". O quadro foi comprado por uma empresa discográfica que fez dele a sua imagem de marca, contudo, só em 1910 seriam registados como trademark, tanto o quadro como o título.
Para os mais curiosos, podem consultar a página http://www2.danbbs.dk/~erikoest/nipper.htm

[2] Paulo Cambraia, José Matos-Cruz e Fátima Marques são historiadores/investigadores de Cinema. Sendo José Matos-Cruz historiador de cinema português e Paulo Cambraia e Fátima Marques de cinema português de animação

[3] - "packshot" - calão publicitário.
É usado para designar um "plano de produto", ou seja, o plano que surge no final dos filmes publicitários mostrando o produto.



Imagem da marca "His Master's Voice"

©1997, 1998 Erik Østergaard, Copenhagen, Denmark.


quarta-feira, julho 05, 2006

Os Pioneiros II - A Lenda de Miragaia

Filme: "A Lenda de Miragaia"
Género: Animação
Técnica: Animação de Recortes (silhuetas)
Realizador: Raul Faria da Fonseca e António Cunhal [1]
Produção: 1931 (Julho/Agosto)
Estreia: 1 de Junho de 1931, no Paris-Cinema
País: Portugal
Som: Filme Mudo
Duração: ?
Estado: Perdido
Produtor: Ulyssea-Film
Personagens: Rei Ramiro, Rei Mouro, Princesa.

“A Lenda de Miragaia” é, no panorama do Cinema Português de Animação, um dos filmes mais interessantes. Caracterizado essencialmente pela sua singularidade técnica, este filme surge no ano de 1930/1931 [2], como o primeiro filme de animação de silhuetas, realizado em Portugal. A técnica consistia em desenhar em papel as personagens e cenários, que posteriormente seria recortado à tesoura e montados em cartolina, de modo a que se pudesse orquestrar a sua movimentação.
Este tipo de animação provoca um efeito visual muito interessante, que recorda o universo dos teatros de sombras chinesas.
A lenda de Miragaia, na versão do Romanceiro de Garrett foi a história que serviu de base ao desenvolvimento da animação, “o entrecho é conhecido. As lutas do Rei Ramiro contra o Rei Mouro, os actos de coragem e sacrifício e o fiozinho de amor de todas as nossas lendas (…)”.
Outro aspecto interessante é a afinidade deste filme com “As aventuras do Príncipe Achmed” (1926), da realizadora Alemã Lotte Reiniger. Este filme, identificado comummente como a primeira longa-metragem europeia de animação, utiliza a mesma técnica, e até mesmo a narrativa encontra pontos de contacto.
Contudo a técnica do recorte é mais característica do norte da Europa, onde ainda hoje, o hábito de recortar figuras para ornamentar as janelas, durante as quadras festivas é comum. Nota-se assim, no filme português, uma inferioridade técnica, relativamente ao seu contemporâneo.
De qualquer modo não perde o seu mérito. É sem dúvida um dos filmes mais originais que encontramos em toda a História do Cinema Português de Animação, não só pelos seus atributos estéticos, mas também pelas suas qualidades formais e expressivas.


[1] Irmão de Álvaro Cunhal, morre com 22 anos de idade, vitima de tuberculose.

[2] O filme só viria a estrear um ano após a sua conclusão em 1931.


Quadro do filme a " Lenda de Miragaia"

[imagem da revista Cinéfilo]

segunda-feira, julho 03, 2006

Os Pioneiros I - O Pesadelo de António Maria

A prova de que o cinema de animação não é só para as criancinhas, mas também para adultos, é-nos dada precisamente pelo filme pioneiro de animação portuguesa - "O Pesadelo de António Maria", que data de 1923.

No início do século Portugal vivia um ambiente politico conturbado “os anos de 1920 e 1921, em Portugal como noutros países da Europa, caracterizaram-se por situações instáveis e conturbadas”. A corrupção, os atentados políticos, o “bombismo social” as crises de autoridade e a inflação faziam parte do dia-a-dia. É neste contexto que surge o Pesadelo de António Maria, um pequeno filme animado que abria a revista “Tiro ao Alvo” de Luís de Aquino, Xavier de Magalhães e Lourenço Rodrigues, exibida no Éden Teatro em Lisboa.


[imagem do arquivo de Paulo Cambraia]

Este filme animado tinha por personagem principal António Maria da Silva, uma figura política que ocupou variados cargos relevantes[1], contudo o desejo de dominar a política portuguesa e de ser a primeira figura do seu partido levam-no a adoptar atitudes pouco populares entre o povo, coisa que aliás se reflecte na criação desta animação.

“O Pesadelo” conta-nos uma pequena história onde os medos e anseios de António Maria da Silva se libertam do seu subconsciente para o atormentar, questão essa que é resolvida com uma ida à revista “Tiro ao Alvo”, para que “vossa excelência” não tivesse mais pesadelos.

O pioneiro Português de Animação apresenta aspectos formais e estilísticos muito próprios e dificilmente homónimos em todo o cinema de animação que lhe seguiu.
Joaquim Guerreiro efectuou o casamento perfeito entre os aspectos formais e estilísticos. A caricatura não poderia estar melhor, senão nesta animação de carácter satírico.
O espólio do cinema de Animação Portuguesa pertencente ao período entre 1920 e 1930 (do qual temos conhecimento), é muito curto, contando apenas quatro filmes: um suposto anúncio internacional para a empresa discográfica “His Masters Voice”, produzido por Nunes & Quintão em 1920, do qual se sabe muito pouco, restando ainda algumas dúvidas quanto à animação das figuras [2]; Segue-se “O Pesadelo de António Maria”, datado de 1923, realizado por Joaquim Guerreiro, um caricaturista e desenhador de vários jornais, "Tip Top" no ano de 1925, realizado por Fred Netto, e “Uma História de Camelos” datado de 1930 realizado por João Rodrigues Alves, um “ilustrador e mestre na Escola António Arroio”. Sabe-se que durante este período foi também produzido o filme “A Lenda de Miragaia”, que só viria a estrear em 1931. Este último filme apresenta uma técnica alemã muito característica: o recorte de papel.

Filme Destaque: "O Pesadelo de António Maria"

Género: Animação
Técnica: Animação Tradicional (desenho sobre papel - caricatura)
Realizador: Joaquim Guerreiro (caricaturista e desenhador)
Data: 1923
Estreia: 25 de Janeiro de 1923, no Éden Teatro, em Lisboa
País: Portugal
Som: Filme Mudo
Duração: ?
Estado: Perdido - apenas se conhecem os desenhos originais, através dos quais, Paulo Cambraia executou uma reconstituição do filme original
Produção: Eden-Teatro
Personagens: O Politico, o Policia e o Povo

António Maria da Silva (1872-1950) é a personagem principal, que dá título ao filme. Trata-se de uma figura da política portuguesa, que ocupou variados cargos relevantes[3], contudo, o desejo de dominar a política portuguesa e de ser a primeira figura do seu partido levam-no a adoptar atitudes pouco populares entre o povo. Neste pequeno filme António Maria revela-se uma personagem receosa da atitude do povo, pouco seguro de si, um homem nervoso, perturbado e preocupado.

O Policia é neste filme caracterizado de uma forma caricata. A figura de autoridade e vigilância surge no primeiro plano a dormir, despreocupado e alienado das suas funções.

O Povo surge como um colectivo que partilha ideais comuns. A frase “abaixo a carestia e o ensino” é o seu mote. Tem uma atitude agitaria, contra o regime.

____________

O Desenho

A Reconstituição filme foi feita por Paulo Cambraia[4], a partir de 159 desenhos originais e oito legendas manuscritas, pertença da CRP – Colecção Ricon Peres. O proprietário adquiriu estes desenhos num alfarrabista, em Lisboa, desconhecendo na altura de que se tratavam dos desenhos originais do filme [5].

As folhas dos desenhos encontram-se amarelecidas, devido ao mau acondicionamento dos mesmos durante anos (os desenhos só foram adquiridos pela colecção Ricon Peres em finais dos anos 80), no entanto a reconstituição com base nesses desenhos adquire um aspecto interessante que resulta desse tom de amarelo [6].

Os desenhos são lineares; vivem da linha e das diferenças de espessura entre elas, são pouco elaborados e do ponto de vista estilístico um pouco pobres. Mas comparando este pequeno filme com algumas experiências anteriores, feitas na Europa e na América, podemos concluir que o desenho não se encontra muito desfasado dos seus contemporâneos. Não nos podemos esquecer de que em Portugal as condições técnicas para a realização deste tipo de trabalho eram péssimas, e que na maioria das vezes era o animador que construía os seus próprios instrumentos de trabalho.
Outro aspecto interessante detém-se com a organização dos desenhos no espaço. A escala dos desenhos e as sombras, por exemplo, não obedecem a qualquer regra de perspectiva, surgindo em cada frame de forma diferente da do frame anterior. As personagens aparecem desproporcionadas, quer seja entre si, quer seja com o cenário. Com as sombras ocorre o mesmo, tanto pode aparecer uma personagem a projectar sombra num plano, como no plano seguinte a sombra pode desaparecer. Estes pormenores poderiam reflectir alguma desatenção por parte do animador, ou indicar-nos que os desenhos seriam apenas estudos de personagem e cenários, ou ate mesmo que os 159 desenhos poderiam ser apenas uma pequena parte do total, contudo, Paulo Cambraia, responsável pela reconstrução do filme, com base nos desenhos originais, afirma que não ter quaisquer dúvidas sobre o facto de serem os desenhos definitivos e totais, pelo que os pormenores acima referidos podem se dever a outras causas.


[1] Foi Ministro do Fomento, Ministro do Trabalho e da Previdência Social, Ministro das Finanças, 2 por quatro vezes Primeiro-ministro, cumulando sempre outros cargos (Presidente do Ministério, Presidente e Ministro do interior, Presidente e Ministro da Guerra, Presidente e Ministro do Interior)

[2] Ver post "His Masters Voice"

[3] Foi Deputado às Constituintes e mais tarde Ministro do Fomento nos governos de Afonso Costa, de 1913 a 1914 e de 1915 a 1916; Ministro do Trabalho e da Previdência Social, no ministério da União Sagrada, presidido por António José de Almeida, de 16 de Março de 1916 a 25 de Abril de 1917; Ministro das Finanças, no governo de Sá Cardoso, de 3 a 15 de Janeiro de 1920; E por quatro vezes Primeiro-ministro, cumulando sempre outros cargos (Presidente do Ministério) entre 26 de Junho de 1920 e 19 de Julho de 1920; (Presidente e Ministro do interior), de 7 de Fevereiro de 1922 a 15 de Novembro de 1923;Presidente e Ministro da Guerra), de 1 de Julho a 1 de Agosto de 1925. (Presidente e Ministro do Interior), entre 18 de Dezembro de 1925 a 30 de Maio de 1926).

[4] Paulo Cambraia efectuou a reconstrução do filme "O Pesadelo de António Maria" com base nos 159 desenhos originais, pertencentes à colecção Ricon Peres. É produtor e historiador de Cinema de Animação.

[5] Os desenhos encontram-se no Museu da Presidência da República, no Palácio de Belém, Lisboa.

[6] Desde que adquiridos pela Colecção Ricon Peres, em finais de 80, os desenhos foram acondicionados devidamente, encontrando-se em bom estado de conservação, tendo em conta a sua idade.

Fotocópia de um dos 159 desenhos originais do filme “O Pesadelo de António Maria”
[imagem pertencente à colecção Ricon Peres]

Breve História do Cinema Português de Animação

A História do Cinema Português de Animação inicia-se em 1923 com a realização do filme de desenhos animados “O Pesadelo de António Maria”. Este pequeno filme sobre o político António Maria abria um novo quadro da Revista “Tiro ao Alvo” e era considerado na altura “um filme cómico da mais flagrante actualidade”[1].
Seguem-se alguns filmes: “Tip Top” (1925), “Uma história de Camelos” (1930), a“A Lenda de Miragaia” (P:1930;E:1931), "A Balda da Fonte" (1933) e "Semi-Fusas" (1934). Surge depois, já na época do cinema sonoro, “O Boneco Rebelde” em 1941/42 e “Automania” de Servais Tiago em 1943, que ganha o Galo de Ouro e o 1º prémio da casa Pathé.

Após estes pequenos filmes de autor, que encontramos na história do cinema, desde 1923 até 1941, a animação segue por outros caminhos, e é na publicidade que encontra refugio.
Aparecem os vários estúdios de publicidade, como os estúdios Kapa e posteriormente os estúdios Cineca, que se dedicam a trabalhar o anúncio publicitário animado, destinado ao público do cinema[2].

Em 1957 surge em Portugal um novo média – a Televisão – que veio, de certo modo, impulsionar a animação publicitária.
Produzir animação era na altura (e ainda hoje), bastante difícil em Portugal: requer imenso tempo, recursos humanos e material apropriado, o que eleva os orçamentos de produção.
Sem qualquer tipo de apoio estatal à produção independente, a publicidade surge como um meio de conseguir manter viva uma actividade de que tantos gostavam, uma vez que eram remunerados pelo seu trabalho.
Tornou-se então comum, no meio da animação, os realizadores produzirem pequenos filmes animados para produtos, sem que as empresas, que promoviam esses mesmos produtos, o tivessem proposto, um sistema a que se dá o nome de “ghost”. Muitos dos filmes realizados desta forma tinham a sorte de serem aceites pelo cliente. Foi deste modo que se fez animação durante muito tempo em Portugal.
Esses filmes publicitários concorriam também em festivais de animação, nas categorias de publicidade. Muitos realizadores de Animação Portuguesa foram premiados em festivais internacionais. Artur Correia ganhou o Prémio Annecy em 1967 com o filme “O Melhor da Rua”, um filme publicitário para a Schweppes (que apesar de ser vencedor, não foi aceite pela empresa promotora).

Será deste modo que a animação portuguesa sobreviverá até 1970, quando reaparece o filme de autor. “Eu quero a Lua", filme de Artur Correia, e único filme não comercial produzido pela Topefilme, vem abrir um novo caminho. “Eu Quero a Lua” é exibido em Bilbau em 1972 e é premiado com uma medalha de ouro.

Entretanto o panorama do cinema começa a mudar: Assiste-se em 71 à criação do Instituto Português do Cinema[2] que possibilita a realização de uma série de Contos Tradicionais Portugueses também da autoria de Artur correia e de Ricardo Neto. Todos os filmes desta série viriam a ser apoiados pelo IPC. Aliado ao apoio do IPC ao cinema de animação, a RTP faz várias encomendas a estúdios de animação para desenvolvimento de filmes educativos e aparecem depois as séries televisivas, como o “Romance da Raposa”.

Em 1974 Vasco Granja inicia um programa de cinema de animação de autor, que se manteve no ar durante dezasseis anos. No anos seguinte nasce a Associação Portuguesa de Cinema de Animação, também pela mão de Vasco Granja, e em 1977, realiza-se pela primeira vez o Cinanima, Festival Internacional de Cinema de Animação, e um dos marcos mais importantes na história do Cinema Português de Animação.

Contudo, este panorama, aparentemente positivo, não irá durar muito, e a partir dos anos 80 a produção de animação irá decair, mas desta vez, associado à crise nacional, está outro aspecto bastante relevante: a transformação e reestruturação de todo o sistema publicitário. Não nos podemos esquecer de que é na década de 80 que surgem as multinacionais, grandes empresas/grupos de publicidade, que acabam por esmagar produtoras mais pequenas, que, ou são compradas pelas multinacionais, ou se reorganizam em pequenos ateliers. Estas multinacionais acabam por comprar um maior número de espaço comercial nas televisões o que provoca uma procura menor por parte de outras empresas deste espaço, como consequência a produção de filmes publicitários animados diminui! A própria ideia de publicidade modifica-se. Os criativos passam a trabalhar com uma equipa formada: doutorados, psicólogos, assessores de marketing. Isso faz com que muitas vezes o filme de imagem real seja escolhido em detrimento da animação, remetida na maior das vezes para o filme publicitário dirigido ao público infantil[4].

Felizmente, os ateliers criados pelo Cinanima, e o impulso das novas gerações, influenciaram de modo positivo o Cinema de Animação, fazendo ressurgir o filme de autor.

Desde 1991 que o número de curtas-metragens de animação produzidas em Portugal tem vido a crescer significativamente. No ano de 2003 foram registados 14 filmes, e as médias de produção de 2004 a 2006 não se afastam muito deste número.
Mas seria possível fazer ainda mais e melhores filmes se não existisse uma deficiente dimensão do mercado aliada à situação desprotegida da produção portuguesa face aos filmes estrangeiros.

De qualquer modo o Cinema Português de Animação “vai no bom caminho”: os filmes produzidos apresentam uma elevada qualidade técnica e artística, sendo na maioria das vezes premiados em festivais internacionais. “A Suspeita” (1999) de José Miguel Ribeiro, que venceu 27 prémios [5], incluindo o Cartoon d’Or 2000, é um exemplo da qualidade da produção portuguesa. Mais recentemente temos o filme "História Trágica com final Feliz" (2005), de Regina Pessoa, que prima também pela sua qualidade, tendo ganho no passado mês de Junho o Grande Prémio de Annecy.[6]

Foram publicadas ainda as primeiras obras dedicadas ao Cinema de Animação Português. Em 2001 António Gaio publica "História do cinema Português de Animação – Contributos", é lançado também o livro Cinanima 25 anos, e “Cinema sem Actores – Novas Tecnologias da Animação Centenária”, de António Costa Valente. Em 2004, Ilda Castro publica "Animação Portuguesa -conversas com…".

Acontece ainda a criação de ateliers de animação no Festival de Avanca, assim como a criação de cursos que contemplam a animação como unidade curricular. Embora não exista em Portugal nenhum curso do ensino superior com a designação de Cinema de Animação, escolas como a ETIC (Escola Técnica de Imagem e Comunicação) ou a RESTART vão preenchendo o vazio que se faz sentir nesta área. Existem no entanto cursos do ensino superior que apostam já na escolha de uma unidade curricular dedicada à Animação para complementar a formação dos alunos, a UALG (Universidade do Algarve) foi a primeira universidade a integrar disciplinas de Imagem Animada nos seus cursos, actualmente, o curso de Design desta instituição possui duas disciplinas (Imagem Animada) no seu plano curricular; mais recentemente, na UBI (Universidade da Beira Interior) foi criado um mestrado em Estudos Fílmicos, que contempla também uma disciplina, intitulada Cinema de Animação. São pequenos passos que encaminham o Cinema de Animação e nomeadamente o Cinema de Animação Português, que necessita não só de criadores, mas de indivíduos qualificados que lhe dediquem o cuidado e estudo que merece.


[1] In Diário de Noticias ( 23 de Janeiro de 1923)

[2] Até o surgimento da televisão era costume passar no cinema, antes da sessão, um jornal de actualidades, um documentário de actualidades assim como pequenos filmes publicitários.

[3] O Instituto Português do Cinema é criado pelo Descreto Lei 7/71, contudo só em 1973 inicia a sua actividade

[4] É possivel que o filme de animação tivesse como objecto produtos dirigidos ao publico infantil. O Vitinho, associado à marca Milupa, é uma das criações mais evidentes das estratégias de marketing. Se verificarmos as encomendas de trabalhos de animação encontramos anunciados muitos produtos infantis, como chocolates, cromos, pastilhas, gelados etc.

[5] O Filme "A Suspeita" acumulou, entre 1999 e 2001, 27 prémios e 1 menção honrosa, nos 21 festivais onde concorreu. [Informação cedida por Paulo Cambraia]

[6] O filme "História Trágica com Final Feliz" de Regina Pessoa possui uma página: http://www.historiatragicacomfinalfeliz.com/ onde se pode encontrar, entre outras informações, a lista completa de prémios ganhos pelo filme.