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quarta-feira, julho 12, 2006

Reflexões II - O Filme de Autor

O filme de autor tem, na história do cinema português de animação, um percurso bastante curioso, se por um lado a história do cinema português de animação se inicia com o filme de autor (são exemplo disso o “Pesadelo de António Maria” 1923 e “A Lenda de Miragaia” (P:1930, E:1931), por outro, é na publicidade que se vão encontrar as principais referências do género, até 1970, quando surge o filme “Eu quero a Lua” (P: ?, E:1971), pela mão de Artur Correia.
A partir de 1970 podemos verificar a ascensão, ainda que gradual, da produção de obras de autor, tendo, em 2003 sido produzidas cerca de 13 obras em Portugal [1].
É no entanto curioso este percurso que o filme de autor faz: surge com os pioneiros e depois é colocado em parêntesis durante cerca de 30 anos, ganhado a partir de 1970 uma nova força.

Vejamos, no início do século XX (1923-1945), aquando o surgimento de “O Pesadelo de António Maria” ou de “ A Lenda de Miragaia”, vivia-se um contexto económico-social muito diferente do actual. O Cinema tinha acabado de nascer, vivia-se num ambiente de novidade e inovação, era natural que os mais curiosos, e também endinheirados, pudessem experimentar as maravilhas da animação. Assim estes filmes de autor surgem num panorama experimental. Explorava-se o novo universo que era a animação, as técnicas utilizadas eram muito primárias e existia ainda uma escassez muito grande de material[2], os realizadores experimentavam por puro prazer e divertimento.
Com o filme publicitário (antes do advento da televisão) já não se passava o mesmo, devido ao seu carácter de difusão comercial, apresentava um objectivo bem delineado: a venda do produto que anunciava! Eram filmes destinados a passar nas salas de cinema, nos intervalos ou antes das sessões. Os filmes eram produzidos de um modo bastante curioso e singular, o que, de certo modo salvaguardou a liberdade artística dos autores dos filmes.
Eram realizados “à priori”, ou seja antes da marca ou empresa encomendar qualquer tipo de publicidade. Depois de concluído, o filme era apresentado à empresa, e esta podia aceitar, ou não o anúncio publicitário. Os animadores encontraram assim uma forma de exercerem a sua actividade, preservando a sua liberdade artística.
Quando surge a televisão surge também uma “mini indústria” do cinema de animação. A animação descobre que vive melhor do filme animado publicitário, pois este era uma fonte de rendimento, o volume de encomendas era maior e assim os estúdios podiam produzir, os realizadores podiam fazer aquilo de que mais gostavam, sendo renumerados por isso, no entanto esta é uma situação que não agrada a muitos autores.
Os estúdios abrem por toda a aparte e há trabalho. Esta situação manteve-se num espaço de aproximadamente 20 anos (1960-1980). Em 1980 a indústria da animação começa a decair devido à crise nacional, associada à transformação e reestruturação de todo o sistema publicitário. Não nos podemos esquecer de que é na década de 80 que surgem as multinacionais, grandes empresas/grupos de publicidade, que acabam por esmagar produtoras mais pequenas, que ou são compradas pelas multinacionais, ou se reestruturam em pequenos ateliers. Estas multinacionais acabam por comprar um maior número de espaço comercial nas televisões o que provoca uma procura menor por parte de outras empresas deste espaço e sub consequentemente a produção de filme publicitário animado diminui. A própria ideia de publicidade modifica-se. Os criativos passam a trabalhar com uma equipa formada: doutorados, psicólogos, assessores de marketing. Isso faz com que muitas vezes o filme de imagem real seja escolhido em detrimento da animação, remetida na maior das vezes para o filme publicitário infantil[3].
No entanto, com a criação do IPC em 71 e do Cinanima em 77, desenvolvem-se várias estruturas que viriam a influenciar de modo positivo o cinema de animação, possibilitando assim o ressurgimento do filme de autor. Hoje o cinema português de animação vive mais do filme de autor do que da publicidade, no entanto, continuam a existir produtoras de animação em Portugal que trabalham não só com filmes de autor, mas com anúncios publicitários animados.


[1] Dados obtidos no ICAM (obras financiadas por esta instituição)

[2] Mário Neves, realizador de animação conta, em entrevista a Ilda Castro, que muitas das suas máquinas eram criadas por ele, desenhadas e enviadas a serralheiros para construção.

[3] É possivel que com as novas políticas de publicidade o filme de animação passe a publicitar produtos dirigidos para o publico infatil.
Se verificarmos as encomendas de trabalhos de animação encontramos anunciados muitos produtos infantis, como chocolates, cromos, pastilhas, gelados...
O "Vitinho", personagem criada pela marca Milupa, é um bom bom exemplo de estratégia de marketing.

sexta-feira, julho 07, 2006

Reflexões I - Cinema Português de Animação, que Futuro?

Cinema Português de Animação, que Futuro?

António Ferreira Gaio, actual director do "Cinanima", afirmou em 2001[1], aquando a comemoração das bodas de prata do festival, que lhe era difícil prever o futuro da animação em Portugal. Hoje passados cinco anos as coisas não mudaram assim tanto, e o passado em muito se assemelha com o presente.
A questões como a deficiente dimensão do mercado, que sempre se fez sentir em Portugal, a situação desprotegida da produção portuguesa face aos filme estrangeiros e a centralização nos principais focos culturais (Lisboa e Porto), podemos aliar outros factores como as modificações operadas no lazer e subsequentemente nos hábitos do público, assim como a actual instabilidade político-económica. Todos estes factores contribuem de modo negativo para a evolução deste género.
Alertado para o estado do Cinema de Animação, o presidente do Instituto Português do Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM), Pedro Berhan da Costa, anunciou no Cinanima de 2001, "a sua intenção de convidar as televisões portuguesas para uma reunião com os profissionais do cinema de animação" para que fosse possível discutir a situação do sector. Segundo uma notícia publicada no jornal Público, de 10 de Novembro de 2001, "as televisões, e a RTP em particular, seriam, aliás, os principais "réus", ausentes, do diagnóstico feito sobre o estado da animação." Os profissionais da área queixaram-se de que a RTP se limitava a cumprir os apoios a que é obrigada por lei, sem exprimir qualquer tipo de interesse ou acompanhamento da actividade produtiva, assim como se lamentaram da "sistemática ausência de responsáveis da televisão pública no Cinanima".
Segundo Paulo Cambraia, na altura presidente da Cartoon Portugal, esta reunião não foi conclusiva: "do lado da RTP disseram "pois sim, claro, temos essa obrigação mas agora estamos em reestruturação, talvez lá para Fevereiro...". De facto, estavam num período de reestruturação, que vinha a seguir a uma reestruturação que tinha havido antes, que por sua vez já vinha a seguir a outra, e outra, e outra. O que acontece é que em Fevereiro entrou outra reestruturação, e parece que hoje continuamos em alegres reestruturações na RTP. (...) Da parte da TVI disseram "sim, podia haver uma abertura", que poderia por exemplo criar uma "marca" dentro de um programa que eles já têm e testar essa "marca" - isto é linguagem comercial utilizada pelo representante da TVI. Se funcionasse eles estavam dispostos a continuar, mas, "a TVI fica dona dos desenhos, dos personagens, dos textos, das músicas, dos filmes...". Ou seja o produtor seria reduzido a um mero funcionário da TVI, mas teria a responsabilidade de fazer a produção toda, organizar toda a parte criativa, tudo, e no fim ficava com nada! Seria pago mal e porcamente e ficava sem sequer ter a possibilidade de ir buscar o dinheiro do merchandising aos mercados fora da televisão, não poderia explorar as personagens de outras maneiras, etc. Eles ficariam donos de tudo! (...) A SIC teve talvez a posição mais honesta, por muito que me custe admiti-lo, é uma posição que não me agrada nada mas foi extremamente honesta. (...) O que a SIC diz é linear e é assim: "Nós só compramos no mercado internacional, ao preço mais barato possível, e mesmo assim só compramos produtos já testados noutros mercados" (...) . Baratos, porque vêm aos preços dos direitos de exibição, preços esses que não têm nada a ver com os preços de produção.
E se a animação portuguesa vive, ou vivia essencialmente das encomendas da televisão, surge de novo um grave problema, já verificado anteriormente aquando o fecho da Topefilme. Recordemo-nos de que este estúdio, que produziu inúmeros anúncios publicitários assim como curtas-metragens, fechou devido à "interrupção abrupta de encomendas por parte da RTP", tal como vem acontecendo agora.
Em consequência desta conjuntura de factores desfavoráveis o único recurso possível é o estado, e os animadores candidatam-se em massa aos subsídios do ICAM. No Jornal de Notícias de 5 de Novembro de 2001 é publicada uma noticia que anuncia a realização de um debate subordinado ao tema "O estado do cinema de animação em Portugal" e o risco de subsídio-dependência, onde foram passados em revistas dossiers com os apoios concedidos às novas produções, e apesar dos subsídios do ICAM para o cinema de animação aumentarem de ano para ano, é natural que não chegue para todos, ficando de fora inúmeros trabalhos com qualidade.
Sem uma indústria organizada o cinema de animação terá de continuar a viver neste estado de letargia, dependendo em grande parte dos subsídios do ICAM para que exista produção, o que aumenta de certo modo o risco de subsídio-dependência. Mas é curioso que apesar da crise que se faz sentir no sector, as poucas obras produzidas, continuam a reflectir evolução e qualidade.
Um dos recentes fenómenos da Animação Portuguesa foi "O Patinho" produzido por Humberto Santana. O filme que "mandava as crianças para a cama" tornou-se numa verdadeira fonte de rendimento. Desde toalhas, camisolas, discos, cadernos, tudo se licenciava! E o sucesso do "Patinho" não se limitou a Portugal. O filme também teve uma boa aceitação internacional. Segundo Humberto Santana "(...) teve bastante sucesso num festival em Nova Iorque (...) e o Museu do Audiovisual de Nova Iorque adquiriu à RTP uma cópia do filme para ficar em arquivo", houve ainda a vontade de algumas televisões europeias de se tornarem parceiras numa série maior do personagem.
A par do "Patinho" encontramos várias curtas metragens, todas elas marcadas pela qualidade gráfica e criativa.
O filme “A Suspeita” (1999) de José Miguel Ribeiro, que venceu 27 prémios [5], incluindo o Cartoon d’Or 2000, é um exemplo da qualidade da produção portuguesa. Mais recentemente temos o filme "História Trágica com final Feliz", de Regina Pessoa, que prima também pela sua qualidade, tendo ganho no passado mês de Junho o Grande Prémio de Annecy.[2]
É deste modo que vive o cinema de animação de autor, dos festivais e das competições, a única forma de reconhecimento que encontram os autores.

Outros aspectos relevantes para o desenvolvimento do Cinema de Animação

1. Publicação das primeiras obras sobre a Cinema de Animação Português: "História do Cinema Português de Animação-Contributos", de António Gaio (2001), "Conversas com..." (2004) da responsabilidade de Ilda Castro,"Cinanima 25 anos" (2001) e “Cinema sem Actores – novas tecnologias da animação centenária”, de António Costa Valente (2001);

2. Cursos Promovidos Pelo Centro de Investigação e de Estudos Arte e Multimédia (CIEAM);

3. Criação de ateliers de animação no festival de Avanca;

4. Criação de cursos que contemplam a animação como unidade curricular. Embora não exista nenhum curso de ensino superior com a designação de Cinema de Animação em Portugal, escolas como a ETIC (Escola Técnica de Imagem e Comunicação) ou a RESTART vão preenchendo o vazio que se faz sentir nesta área. Existem no entanto cursos do ensino superior que apostam já na escolha de uma unidade curricular dedicada à Animação para complementar a formação dos alunos, a UALG (Universidade do Algarve) foi a primeira universidade a integrar disciplinas de Imagem Animada nos seus cursos, actualmente, o curso de Design desta instituição possui duas disciplinas (Imagem Animada) no seu plano curricular; mais recentemente, na UBI (Universidade da Beira Interior) foi criado um mestrado em Estudos Fílmicos, que contempla também uma disciplina, intitulada Cinema de Animação.

São estes pequenos passos que encaminham o Cinema de Animação Português, que necessita não só de criadores, mas de indivíduos qualificados que lhe dediquem o cuidado e estudo que merece.

[1] António Gaio faz essa afirmação no Jornal Público de 5 de Novembro de 2001, a qual passamos a citar: "Estamos num momento de transformação. Mas o futuro depende sempre, e principalmente, de haver os filmes de desenhos animados. É verdade que hoje, com as novas técnicas, aparecem novas possibilidades. Mas é-me difícil prever o futuro"

[2] O filme "História Trágica com Final Feliz" de Regina Pessoa possui uma página: http://www.historiatragicacomfinalfeliz.com/ onde se pode encontrar, entre outras informações, a lista completa de prémios ganhos pelo filme.