segunda-feira, julho 10, 2006

Cinanima

O Cinanima, primeiro e único festival de cinema de animação em solo português, surge em 1976/77 , na cidade de Espinho, pela mão da Cooperativa Nascente da qual fazia parte António Gaio, actual director do festival.
António Gaio conta que “em 1976 foi organizada uma mostra de Cinema de Animação Checoslovaco, (…) uma espécie de ensaio geral para o Cinanima” que só no ano seguinte, em 1977, teve a sua primeira edição, conta-nos ainda que o Cinanima viveu entre 77 e 81 uma fase complicada, marcada por “uma série de discussões entre a comissão organizadora e a direcção da cooperativa Nascente”, que viria mesmo a ocasionar a demissão da comissão organizadora.
É nessa altura que António Gaio assume e assegura a continuidade do festival, do qual é presidente desde 1981.

O Cinanima surgiu com o objectivo de promover o cinema de animação, a exibição de obras cinematográficas inéditas em Portugal e estimular o desenvolvimento do ensino do cinema de animação. Na minha opinião, fez muito mais do que isso.
Foi nos primeiros ateliers de formação do Cinanima que se formaram grandes nomes do Cinema de Animação, como Abi Feijó, Marina Estela Graça, Manuel Tentúgal, Clídio Nóbio, entre outros. Foi essa “Geração Cinanima” que impulsionou e continua de certo modo a impulsionar o cinema de animação em Portugal, através das mais variadas actividades. Exemplo disso é o trabalho desenvolvido por Abi Feijó: trabalhou como professor na Cooperativa Árvore (1980 a 1990), orientou vários workshops, tanto a nível nacional como internacional, direccionados para crianças e adultos, deu aulas na Universidade Católica do Porto e na Escola Superior Artística do Porto, foi júri em várias competições e festivais, foi presidente da ASIFA (2000-2002) [1], criou o estúdio de animação “Filmógrafo” e funda a Casa da Animação, da qual também é presidente.
Marina Estela Graça é outro dos nomes da “Geração Cinanima” que contribuiu e continua a contribuir para o desenvolvimento do cinema de animação: efectuou o seu mestrado e doutoramento em cinema de animação, foi professora e investigadora na Universidade do Algarve, onde teve um papel decisivo na criação de disciplinas de imagem animada no curso de Formação de Professores em Educação Visual e Tecnológica, e Design, participou em várias conferências internacionais e publicou alguns livros e ensaios. Em 2001 presenteou o Cinema Português de Animação com a sua curta-metragem "Interstícios".

Dando cartas na formação, o Cinanima estava não só a "ensinar a fazer", mas a "ensinar a ver", aliando inteligentemente o seu carácter lúdico a uma componente didáctica muito forte, educando o público, colocando-o em contacto com realidades diferentes daquelas que até então eram oferecidas .
Para além de se preocupar em apresentar cinema de animação para o público, o Cinanima preocupou-se também em apresentar um público para o cinema de animação, e é este, na minha opinião, um dos motivos mais fortes para o êxito nacional e internacional do festival.

Parabéns Cinanima!


Ateliers do Cinanima (1978-1995)

1978-Equipa representante da organização internacional BILIFA-Bureau Internacional de Liaison des Institutes du Film d’Animation chefiada pelo professor Gaston Roch.

1979-Professor Gaston Roch, e equipa de monitores franceses da “Collodion Humide” e animadores locais.

1980-Professor Gaston Roch, e equipa de monitores franceses da “Collodion Humide” e um grupo de animadores da Cooperativa Nascente.

1981-Atelier orientado porr Carvalho Baptista, Pedro Lopes e Adelino Lopes Aguiar.
Para além das colaborações habituais em anteriores ateliers, teve este ano a participação do Clube Microcine de Lisboa. um clube de cinema de amadores que desde há muito se vem dedicando também à divulgação, ensino e produção de cinema de animação em super-8

1983-Avelino Nunes

1985-Animatona Portuguêsa Álvaro Feijó, Rui Bras, José Carlos Gonçaslves e Sergio Saraiva.

1987-II Animatona portuguêsa, André Leduc e a sua equipa, Alberto Lírio e Avelino Nunes.

1988-Fernando Galrito, Manuel Duran, Margarida Azevedo, Miguel França, Alfons Mensdorf e Milan Svatos (Checoslovaquia)

1989-Manuel Duran, Margarida Azevedo, Miguel França, Jordi Artigas e José Jorna (Espanha)

1990-Margarida Azevedo, Miguel França e Jochen Ehmenn (Alemanha).

1995 - Organizado pela ASIFA e pelo CINANIMA
Abi Feijó (Portugal), Jessica Langford (, Reino Unido), Jean-Luc Slock (Bélgica), Jaroslav Baran (Eslováquia) Wilson Lazaretti (Brasil) Paulina Vieira, João Católico, Margarida Terra, Carlos Magalhães, Marina Estela Graça (Portugal)


[1] Associação Internacional do Filme de Animação



Cartaz do Cinanima 2000



sábado, julho 08, 2006

Realizadores I - Mário Neves

DADOS BIOGRÁFICOS

Nome Completo: Mário Vasques das Neves
Data de Nascimento: 1959
Naturalidade: ?
Nacionalidade: Portuguesa

FILMOGRAFIA

Como Realizador
O Homem do Saco Amarelo, pub. (1958)
A Aventura de um Ursinho Pardo, pub. (circa 1959)
O Mestre e o Rato, pub. (circa 1959)
Laranjina , pub.(circa 1959)
Flintcoat (circa 1959)
O Maravilhoso Amigo (circa 1960).
Uma Caçada Que Ficou Célebre (circa 1960).
Fantasia Branca" (1960)

Beth (1978)
O Médico e a Duquesa (1982)
Desinquietações I, série. (1994) 17 filmes de 30'' a 45''
Desinquietações II, série. (2003) 15 filmes de 30'' a 45''


Como Produtor e Realizador
Beth (1978)
O Médico e a Duquesa (1982)

Como Argumentista e Realizador
Desinquietações II (2003)

Mário Neves fez o seu primeiro filme de animação a bordo do “Benguela”, o navio onde trabalhava como enfermeiro. A vida a bordo era monótona, e o desenho era para ele uma espécie de entretenimento.
No seu camarote foi construída uma mesa de luz, pelo carpinteiro do navio, onde podia dar largas à sua imaginação.
Começou então a ilustrar para alguns jornais de Angola, nomeadamente para o “Província de Angola” e mais tarde o “Lobito”.
Alertado para o facto do filme de autor em animação não ter um mercado, começa por conta própria a desenvolver um projecto para os caramelos Heller: uma história sobre um ladrão que usava um saco amarelo para efectuar o seus roubos. No entanto “ O Homem do Saco Amarelo” não foi exibido, não era uma encomenda e era curto demais, mas segundo Mário Neves “serviu para mostrar que era possível fazer animação em Portugal”.
Graças à realização deste filme, foi encomendado a Mário Neves, pela Sociedade Nacional de Sabões, um pequeno filme de animação: “A Aventura de um Ursinho Pardo” (circa 1959): a história era sobre um ursinho pardo que vivia no Pólo Norte, todos os outros ursinhos eram brancos, e ele ficava muito triste por ser diferente, até que surgiu o Sonasol no qual ele alegremente se lavou e ficou limpíssimo, ficou branco.”
O filme foi bem recebido pelo público, no Cinema Roma, “era a primeira vez que se fazia uma coisa falada em português”.
Apesar de se sentir um pouco triste com o facto de ter de subordinar o seu trabalho à publicidade, Mário Neves afirma que este era o único meio, na altura de se poder fazer animação em Portugal
Realizou ainda outro filme de animação publicitário, o “O Mestre e o Rato”. Este pequeno filme era uma animação para uma marca de margarina.



"A aventura de um Ursinho Pardo"

[imagem do arquivo de Paulo Cambraia]

sexta-feira, julho 07, 2006

Reflexões I - Cinema Português de Animação, que Futuro?

Cinema Português de Animação, que Futuro?

António Ferreira Gaio, actual director do "Cinanima", afirmou em 2001[1], aquando a comemoração das bodas de prata do festival, que lhe era difícil prever o futuro da animação em Portugal. Hoje passados cinco anos as coisas não mudaram assim tanto, e o passado em muito se assemelha com o presente.
A questões como a deficiente dimensão do mercado, que sempre se fez sentir em Portugal, a situação desprotegida da produção portuguesa face aos filme estrangeiros e a centralização nos principais focos culturais (Lisboa e Porto), podemos aliar outros factores como as modificações operadas no lazer e subsequentemente nos hábitos do público, assim como a actual instabilidade político-económica. Todos estes factores contribuem de modo negativo para a evolução deste género.
Alertado para o estado do Cinema de Animação, o presidente do Instituto Português do Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM), Pedro Berhan da Costa, anunciou no Cinanima de 2001, "a sua intenção de convidar as televisões portuguesas para uma reunião com os profissionais do cinema de animação" para que fosse possível discutir a situação do sector. Segundo uma notícia publicada no jornal Público, de 10 de Novembro de 2001, "as televisões, e a RTP em particular, seriam, aliás, os principais "réus", ausentes, do diagnóstico feito sobre o estado da animação." Os profissionais da área queixaram-se de que a RTP se limitava a cumprir os apoios a que é obrigada por lei, sem exprimir qualquer tipo de interesse ou acompanhamento da actividade produtiva, assim como se lamentaram da "sistemática ausência de responsáveis da televisão pública no Cinanima".
Segundo Paulo Cambraia, na altura presidente da Cartoon Portugal, esta reunião não foi conclusiva: "do lado da RTP disseram "pois sim, claro, temos essa obrigação mas agora estamos em reestruturação, talvez lá para Fevereiro...". De facto, estavam num período de reestruturação, que vinha a seguir a uma reestruturação que tinha havido antes, que por sua vez já vinha a seguir a outra, e outra, e outra. O que acontece é que em Fevereiro entrou outra reestruturação, e parece que hoje continuamos em alegres reestruturações na RTP. (...) Da parte da TVI disseram "sim, podia haver uma abertura", que poderia por exemplo criar uma "marca" dentro de um programa que eles já têm e testar essa "marca" - isto é linguagem comercial utilizada pelo representante da TVI. Se funcionasse eles estavam dispostos a continuar, mas, "a TVI fica dona dos desenhos, dos personagens, dos textos, das músicas, dos filmes...". Ou seja o produtor seria reduzido a um mero funcionário da TVI, mas teria a responsabilidade de fazer a produção toda, organizar toda a parte criativa, tudo, e no fim ficava com nada! Seria pago mal e porcamente e ficava sem sequer ter a possibilidade de ir buscar o dinheiro do merchandising aos mercados fora da televisão, não poderia explorar as personagens de outras maneiras, etc. Eles ficariam donos de tudo! (...) A SIC teve talvez a posição mais honesta, por muito que me custe admiti-lo, é uma posição que não me agrada nada mas foi extremamente honesta. (...) O que a SIC diz é linear e é assim: "Nós só compramos no mercado internacional, ao preço mais barato possível, e mesmo assim só compramos produtos já testados noutros mercados" (...) . Baratos, porque vêm aos preços dos direitos de exibição, preços esses que não têm nada a ver com os preços de produção.
E se a animação portuguesa vive, ou vivia essencialmente das encomendas da televisão, surge de novo um grave problema, já verificado anteriormente aquando o fecho da Topefilme. Recordemo-nos de que este estúdio, que produziu inúmeros anúncios publicitários assim como curtas-metragens, fechou devido à "interrupção abrupta de encomendas por parte da RTP", tal como vem acontecendo agora.
Em consequência desta conjuntura de factores desfavoráveis o único recurso possível é o estado, e os animadores candidatam-se em massa aos subsídios do ICAM. No Jornal de Notícias de 5 de Novembro de 2001 é publicada uma noticia que anuncia a realização de um debate subordinado ao tema "O estado do cinema de animação em Portugal" e o risco de subsídio-dependência, onde foram passados em revistas dossiers com os apoios concedidos às novas produções, e apesar dos subsídios do ICAM para o cinema de animação aumentarem de ano para ano, é natural que não chegue para todos, ficando de fora inúmeros trabalhos com qualidade.
Sem uma indústria organizada o cinema de animação terá de continuar a viver neste estado de letargia, dependendo em grande parte dos subsídios do ICAM para que exista produção, o que aumenta de certo modo o risco de subsídio-dependência. Mas é curioso que apesar da crise que se faz sentir no sector, as poucas obras produzidas, continuam a reflectir evolução e qualidade.
Um dos recentes fenómenos da Animação Portuguesa foi "O Patinho" produzido por Humberto Santana. O filme que "mandava as crianças para a cama" tornou-se numa verdadeira fonte de rendimento. Desde toalhas, camisolas, discos, cadernos, tudo se licenciava! E o sucesso do "Patinho" não se limitou a Portugal. O filme também teve uma boa aceitação internacional. Segundo Humberto Santana "(...) teve bastante sucesso num festival em Nova Iorque (...) e o Museu do Audiovisual de Nova Iorque adquiriu à RTP uma cópia do filme para ficar em arquivo", houve ainda a vontade de algumas televisões europeias de se tornarem parceiras numa série maior do personagem.
A par do "Patinho" encontramos várias curtas metragens, todas elas marcadas pela qualidade gráfica e criativa.
O filme “A Suspeita” (1999) de José Miguel Ribeiro, que venceu 27 prémios [5], incluindo o Cartoon d’Or 2000, é um exemplo da qualidade da produção portuguesa. Mais recentemente temos o filme "História Trágica com final Feliz", de Regina Pessoa, que prima também pela sua qualidade, tendo ganho no passado mês de Junho o Grande Prémio de Annecy.[2]
É deste modo que vive o cinema de animação de autor, dos festivais e das competições, a única forma de reconhecimento que encontram os autores.

Outros aspectos relevantes para o desenvolvimento do Cinema de Animação

1. Publicação das primeiras obras sobre a Cinema de Animação Português: "História do Cinema Português de Animação-Contributos", de António Gaio (2001), "Conversas com..." (2004) da responsabilidade de Ilda Castro,"Cinanima 25 anos" (2001) e “Cinema sem Actores – novas tecnologias da animação centenária”, de António Costa Valente (2001);

2. Cursos Promovidos Pelo Centro de Investigação e de Estudos Arte e Multimédia (CIEAM);

3. Criação de ateliers de animação no festival de Avanca;

4. Criação de cursos que contemplam a animação como unidade curricular. Embora não exista nenhum curso de ensino superior com a designação de Cinema de Animação em Portugal, escolas como a ETIC (Escola Técnica de Imagem e Comunicação) ou a RESTART vão preenchendo o vazio que se faz sentir nesta área. Existem no entanto cursos do ensino superior que apostam já na escolha de uma unidade curricular dedicada à Animação para complementar a formação dos alunos, a UALG (Universidade do Algarve) foi a primeira universidade a integrar disciplinas de Imagem Animada nos seus cursos, actualmente, o curso de Design desta instituição possui duas disciplinas (Imagem Animada) no seu plano curricular; mais recentemente, na UBI (Universidade da Beira Interior) foi criado um mestrado em Estudos Fílmicos, que contempla também uma disciplina, intitulada Cinema de Animação.

São estes pequenos passos que encaminham o Cinema de Animação Português, que necessita não só de criadores, mas de indivíduos qualificados que lhe dediquem o cuidado e estudo que merece.

[1] António Gaio faz essa afirmação no Jornal Público de 5 de Novembro de 2001, a qual passamos a citar: "Estamos num momento de transformação. Mas o futuro depende sempre, e principalmente, de haver os filmes de desenhos animados. É verdade que hoje, com as novas técnicas, aparecem novas possibilidades. Mas é-me difícil prever o futuro"

[2] O filme "História Trágica com Final Feliz" de Regina Pessoa possui uma página: http://www.historiatragicacomfinalfeliz.com/ onde se pode encontrar, entre outras informações, a lista completa de prémios ganhos pelo filme.

quarta-feira, julho 05, 2006

Os Pioneiros II - A Lenda de Miragaia

Filme: "A Lenda de Miragaia"
Género: Animação
Técnica: Animação de Recortes (silhuetas)
Realizador: Raul Faria da Fonseca e António Cunhal [1]
Produção: 1931 (Julho/Agosto)
Estreia: 1 de Junho de 1931, no Paris-Cinema
País: Portugal
Som: Filme Mudo
Duração: ?
Estado: Perdido
Produtor: Ulyssea-Film
Personagens: Rei Ramiro, Rei Mouro, Princesa.

“A Lenda de Miragaia” é, no panorama do Cinema Português de Animação, um dos filmes mais interessantes. Caracterizado essencialmente pela sua singularidade técnica, este filme surge no ano de 1930/1931 [2], como o primeiro filme de animação de silhuetas, realizado em Portugal. A técnica consistia em desenhar em papel as personagens e cenários, que posteriormente seria recortado à tesoura e montados em cartolina, de modo a que se pudesse orquestrar a sua movimentação.
Este tipo de animação provoca um efeito visual muito interessante, que recorda o universo dos teatros de sombras chinesas.
A lenda de Miragaia, na versão do Romanceiro de Garrett foi a história que serviu de base ao desenvolvimento da animação, “o entrecho é conhecido. As lutas do Rei Ramiro contra o Rei Mouro, os actos de coragem e sacrifício e o fiozinho de amor de todas as nossas lendas (…)”.
Outro aspecto interessante é a afinidade deste filme com “As aventuras do Príncipe Achmed” (1926), da realizadora Alemã Lotte Reiniger. Este filme, identificado comummente como a primeira longa-metragem europeia de animação, utiliza a mesma técnica, e até mesmo a narrativa encontra pontos de contacto.
Contudo a técnica do recorte é mais característica do norte da Europa, onde ainda hoje, o hábito de recortar figuras para ornamentar as janelas, durante as quadras festivas é comum. Nota-se assim, no filme português, uma inferioridade técnica, relativamente ao seu contemporâneo.
De qualquer modo não perde o seu mérito. É sem dúvida um dos filmes mais originais que encontramos em toda a História do Cinema Português de Animação, não só pelos seus atributos estéticos, mas também pelas suas qualidades formais e expressivas.


[1] Irmão de Álvaro Cunhal, morre com 22 anos de idade, vitima de tuberculose.

[2] O filme só viria a estrear um ano após a sua conclusão em 1931.


Quadro do filme a " Lenda de Miragaia"

[imagem da revista Cinéfilo]

segunda-feira, julho 03, 2006

Os Pioneiros I - O Pesadelo de António Maria

A prova de que o cinema de animação não é só para as criancinhas, mas também para adultos, é-nos dada precisamente pelo filme pioneiro de animação portuguesa - "O Pesadelo de António Maria", que data de 1923.

No início do século Portugal vivia um ambiente politico conturbado “os anos de 1920 e 1921, em Portugal como noutros países da Europa, caracterizaram-se por situações instáveis e conturbadas”. A corrupção, os atentados políticos, o “bombismo social” as crises de autoridade e a inflação faziam parte do dia-a-dia. É neste contexto que surge o Pesadelo de António Maria, um pequeno filme animado que abria a revista “Tiro ao Alvo” de Luís de Aquino, Xavier de Magalhães e Lourenço Rodrigues, exibida no Éden Teatro em Lisboa.


[imagem do arquivo de Paulo Cambraia]

Este filme animado tinha por personagem principal António Maria da Silva, uma figura política que ocupou variados cargos relevantes[1], contudo o desejo de dominar a política portuguesa e de ser a primeira figura do seu partido levam-no a adoptar atitudes pouco populares entre o povo, coisa que aliás se reflecte na criação desta animação.

“O Pesadelo” conta-nos uma pequena história onde os medos e anseios de António Maria da Silva se libertam do seu subconsciente para o atormentar, questão essa que é resolvida com uma ida à revista “Tiro ao Alvo”, para que “vossa excelência” não tivesse mais pesadelos.

O pioneiro Português de Animação apresenta aspectos formais e estilísticos muito próprios e dificilmente homónimos em todo o cinema de animação que lhe seguiu.
Joaquim Guerreiro efectuou o casamento perfeito entre os aspectos formais e estilísticos. A caricatura não poderia estar melhor, senão nesta animação de carácter satírico.
O espólio do cinema de Animação Portuguesa pertencente ao período entre 1920 e 1930 (do qual temos conhecimento), é muito curto, contando apenas quatro filmes: um suposto anúncio internacional para a empresa discográfica “His Masters Voice”, produzido por Nunes & Quintão em 1920, do qual se sabe muito pouco, restando ainda algumas dúvidas quanto à animação das figuras [2]; Segue-se “O Pesadelo de António Maria”, datado de 1923, realizado por Joaquim Guerreiro, um caricaturista e desenhador de vários jornais, "Tip Top" no ano de 1925, realizado por Fred Netto, e “Uma História de Camelos” datado de 1930 realizado por João Rodrigues Alves, um “ilustrador e mestre na Escola António Arroio”. Sabe-se que durante este período foi também produzido o filme “A Lenda de Miragaia”, que só viria a estrear em 1931. Este último filme apresenta uma técnica alemã muito característica: o recorte de papel.

Filme Destaque: "O Pesadelo de António Maria"

Género: Animação
Técnica: Animação Tradicional (desenho sobre papel - caricatura)
Realizador: Joaquim Guerreiro (caricaturista e desenhador)
Data: 1923
Estreia: 25 de Janeiro de 1923, no Éden Teatro, em Lisboa
País: Portugal
Som: Filme Mudo
Duração: ?
Estado: Perdido - apenas se conhecem os desenhos originais, através dos quais, Paulo Cambraia executou uma reconstituição do filme original
Produção: Eden-Teatro
Personagens: O Politico, o Policia e o Povo

António Maria da Silva (1872-1950) é a personagem principal, que dá título ao filme. Trata-se de uma figura da política portuguesa, que ocupou variados cargos relevantes[3], contudo, o desejo de dominar a política portuguesa e de ser a primeira figura do seu partido levam-no a adoptar atitudes pouco populares entre o povo. Neste pequeno filme António Maria revela-se uma personagem receosa da atitude do povo, pouco seguro de si, um homem nervoso, perturbado e preocupado.

O Policia é neste filme caracterizado de uma forma caricata. A figura de autoridade e vigilância surge no primeiro plano a dormir, despreocupado e alienado das suas funções.

O Povo surge como um colectivo que partilha ideais comuns. A frase “abaixo a carestia e o ensino” é o seu mote. Tem uma atitude agitaria, contra o regime.

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O Desenho

A Reconstituição filme foi feita por Paulo Cambraia[4], a partir de 159 desenhos originais e oito legendas manuscritas, pertença da CRP – Colecção Ricon Peres. O proprietário adquiriu estes desenhos num alfarrabista, em Lisboa, desconhecendo na altura de que se tratavam dos desenhos originais do filme [5].

As folhas dos desenhos encontram-se amarelecidas, devido ao mau acondicionamento dos mesmos durante anos (os desenhos só foram adquiridos pela colecção Ricon Peres em finais dos anos 80), no entanto a reconstituição com base nesses desenhos adquire um aspecto interessante que resulta desse tom de amarelo [6].

Os desenhos são lineares; vivem da linha e das diferenças de espessura entre elas, são pouco elaborados e do ponto de vista estilístico um pouco pobres. Mas comparando este pequeno filme com algumas experiências anteriores, feitas na Europa e na América, podemos concluir que o desenho não se encontra muito desfasado dos seus contemporâneos. Não nos podemos esquecer de que em Portugal as condições técnicas para a realização deste tipo de trabalho eram péssimas, e que na maioria das vezes era o animador que construía os seus próprios instrumentos de trabalho.
Outro aspecto interessante detém-se com a organização dos desenhos no espaço. A escala dos desenhos e as sombras, por exemplo, não obedecem a qualquer regra de perspectiva, surgindo em cada frame de forma diferente da do frame anterior. As personagens aparecem desproporcionadas, quer seja entre si, quer seja com o cenário. Com as sombras ocorre o mesmo, tanto pode aparecer uma personagem a projectar sombra num plano, como no plano seguinte a sombra pode desaparecer. Estes pormenores poderiam reflectir alguma desatenção por parte do animador, ou indicar-nos que os desenhos seriam apenas estudos de personagem e cenários, ou ate mesmo que os 159 desenhos poderiam ser apenas uma pequena parte do total, contudo, Paulo Cambraia, responsável pela reconstrução do filme, com base nos desenhos originais, afirma que não ter quaisquer dúvidas sobre o facto de serem os desenhos definitivos e totais, pelo que os pormenores acima referidos podem se dever a outras causas.


[1] Foi Ministro do Fomento, Ministro do Trabalho e da Previdência Social, Ministro das Finanças, 2 por quatro vezes Primeiro-ministro, cumulando sempre outros cargos (Presidente do Ministério, Presidente e Ministro do interior, Presidente e Ministro da Guerra, Presidente e Ministro do Interior)

[2] Ver post "His Masters Voice"

[3] Foi Deputado às Constituintes e mais tarde Ministro do Fomento nos governos de Afonso Costa, de 1913 a 1914 e de 1915 a 1916; Ministro do Trabalho e da Previdência Social, no ministério da União Sagrada, presidido por António José de Almeida, de 16 de Março de 1916 a 25 de Abril de 1917; Ministro das Finanças, no governo de Sá Cardoso, de 3 a 15 de Janeiro de 1920; E por quatro vezes Primeiro-ministro, cumulando sempre outros cargos (Presidente do Ministério) entre 26 de Junho de 1920 e 19 de Julho de 1920; (Presidente e Ministro do interior), de 7 de Fevereiro de 1922 a 15 de Novembro de 1923;Presidente e Ministro da Guerra), de 1 de Julho a 1 de Agosto de 1925. (Presidente e Ministro do Interior), entre 18 de Dezembro de 1925 a 30 de Maio de 1926).

[4] Paulo Cambraia efectuou a reconstrução do filme "O Pesadelo de António Maria" com base nos 159 desenhos originais, pertencentes à colecção Ricon Peres. É produtor e historiador de Cinema de Animação.

[5] Os desenhos encontram-se no Museu da Presidência da República, no Palácio de Belém, Lisboa.

[6] Desde que adquiridos pela Colecção Ricon Peres, em finais de 80, os desenhos foram acondicionados devidamente, encontrando-se em bom estado de conservação, tendo em conta a sua idade.

Fotocópia de um dos 159 desenhos originais do filme “O Pesadelo de António Maria”
[imagem pertencente à colecção Ricon Peres]