segunda-feira, julho 17, 2006

"His Master's Voice" - Animação ou não?

No livro "História do Cinema Português de Animação - Contributos", podemos encontrar uma referência a este anúncio. Esta referência, questiona no entanto, se o pequeno anúncio seria ou não animado. Facto que a confirmar, faria de "His Master's Voice" [1], de Luís Nunes, o primeiro "filme" animado português.
Acontece que a única fonte de informação relativa a este filme é Luís Nunes, o seu realizador, que, numa entrevista, publicada no suplemento "Vida" N.º 3 do semanário INDEPENDENTE, ano 1, N.º 25, de 4 de Novembro de 1988 afirma:

"Fiz esse filme para os cinemas de Lisboa, vendi-o para Inglaterra e acabei por perder o quinto ano do liceu. Fui para a China, fui para a Rússia, para toda a parte. Enquanto durou o dinheiro, nunca mais voltei aqui a Portugal. Tinha era que arranjar sempre uma pessoa que depois me acompanhasse em viagem, porque eu era menor. E pagava aquilo tudo! Foi tanto o dinheiro que recebi que fazia isso!"

As afirmações de Luís Nunes são curiosas. Não deixa de ser estranho que o"primeiro filme publicitário internacional" fosse realizado em Portugal por um miúdo com treze anos de idade, e as afirmações seguintes parecem-me, no minímo, exageradas...
Para comprovar então a existência do filme, consultámos o prontuário de José Matos-Cruz. De facto o filme é mencionado no prontuário, mas acresce de uma chamada que refere que a data e os elementos foram referenciados por Luís Nunes. Parece que entramos num beco sem saída...
Consultei então Paulo Cambraia [2], historiador de cinema de animação português, que por sua vez já tinha consultado outros dois historiadores/investigadores: José Matos-Cruz [2] e Fátima Marques [2].
Temos então a mesma opinião de três pessoas diferentes:

Segundo J.Matos-Cruz tratou-se de um filme publicitário, constando apenas a animação no "packshot" [3].
Temos assim, que seria um filme de imagem real.

Segundo a Fátima Marques, tratou-se de um filme imagem real, que no final apresentava a imagem de um cão a olhar um gramofone, de onde saia a voz do dono. Neste packshot, a boca do cão abria e fechava.

Segundo Paulo Cambraia, o anúncio não deve ser qualificado como animação, uma vez que a "suposta" animação surge apenas no final do filme de imagem real, limitando-se à abertura e fecho da boca do cão.
Reserva ainda algumas dúvidas quanto ao realizador do filme, afirmando que "Luís Nunes, eventualmente terá feito a boca mexer".

Não existindo material fílmico para o provar, podemos então concluir que "His Master's Voice" é um filme publicitário de imagem real, onde figura no plano final, uma "tímida" animação da boca do cachorro.
O filme não deve assim ser confundido com uma animação, no verdadeiro sentido da palavra.
Estes factos reforçam o legitimidade de "O Pesadelo de António Maria" como primeiro filme de desenhos animados português.

[1] A 11 de Fevereiro de 1899 Barraud regista o quadro "Dog looking at and listening to a Phonograph", que mais tarde viria a alterar o nome para "His Master's Voice". O quadro foi comprado por uma empresa discográfica que fez dele a sua imagem de marca, contudo, só em 1910 seriam registados como trademark, tanto o quadro como o título.
Para os mais curiosos, podem consultar a página http://www2.danbbs.dk/~erikoest/nipper.htm

[2] Paulo Cambraia, José Matos-Cruz e Fátima Marques são historiadores/investigadores de Cinema. Sendo José Matos-Cruz historiador de cinema português e Paulo Cambraia e Fátima Marques de cinema português de animação

[3] - "packshot" - calão publicitário.
É usado para designar um "plano de produto", ou seja, o plano que surge no final dos filmes publicitários mostrando o produto.



Imagem da marca "His Master's Voice"

©1997, 1998 Erik Østergaard, Copenhagen, Denmark.


quarta-feira, julho 12, 2006

Animação Portuguesa na Internet

Podemos encontrar na Internet um conjunto de sites e blogs dedicados, integral ou parcialmente, ao Cinema Português de Animação. Ficam aqui as referências:


Páginas

CASA DA ANIMAÇÃO
www.casa-da-animacao.pt
Página oficial da Casa da Animação do Porto. Podemos encontrar noticias, workshops, exposições, e a programação desta instituição.

AMOR DE PERDIÇÃO
www.amordeperdicao.pt
Página dedicada ao Cinema Português, contém um conjunto de artigos sobre o Cinema Português de Animação que classifico como muito bons.

ICAM
www.icam.pt
Pagina oficial do Instituto Português do Cinema, Audiovisual e Multimédia. Esta página contém informações sobre o numero de animações produzidas com o apoio do ICAM, assim como animações que se encontram em fase de produção. Contudo desconfio que essa lista não seja actualizada desde 2003. Há ainda espaço para a divulgação de concursos.

CURTAS METRAGENS
www.curtasmetragens.pt
Página dedicada à produção de curtas-metragens portuguesas e seus autores, inclui várias biografias assim como filmografias dos respectivos autores.

CINEMA PORTUGUÊS
www.cinemaportugues.net
Página dedicada ao Cinema Português, é uma espécie de motor de busca. A pagina não é actualizada há bastante tempo.

VIDEOTECA DE LISBOA
www.videotecalisboa.org
Página oficial da Videoteca de Lisboa, podemos encontrar vários catálogos relativamnete às mostras promovidas por esta instituição, alguns contém entrevistas a realizadores. Pode-se facilmente fazer o download dos catálogos (PDF). Há ainda espaço para a programação desta instituição.

CICLOPE FILMES
www.historiatragicacomfinalfeliz.com
Página oficial do Filme “História Trágica com Final Feliz”, é também a pagina da Ciclope Filmes. Podemos encontrar informações sobre o trabalho de Abi Feijó e Regina Pessoa, assim como as suas filmografias completas. É actualizada com frequência. Contém notícias sobre os filmes produzidos pela Ciclope Filmes.

CINANIMA
www.cinanima.pt
Página oficial do primeiro festival de animação organizado em Portugal.
Encontra-se nesta página toda a informação que diz respeito ao Cinanima.

CINECLUBE DE AVANCA
www.avanca.com
Página oficial do festival de avanca. Podem encontrar-se nesta página alguns workshops relativos ao cinema de animação. As inscrições estão a decorrer.

RTP
www.rtp.pt/wportal/sites/tv/patinhos/index.shtm
Página da RTP, dedicada à personagem do “Patinho”. Página dirigida ao público infanto-juvenil. Tem um carácter lúdico.

A PAGINA
www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=1797
Podemos encontrar aqui uma entrevista a Abi Feijó sobre o Cinema de Animação Português

Blogs

Devido ao grande número de blogs sobre cinema de animação, refiro apenas alguns do meu conhecimento. Se tiver um blog dedicado ao género não hesite em enviar um e-mail, terei todo o gosto em divulgar.

ALAMBIQUE
http://alambiquezz.blogspot.com
Blog de Cinema de Animação. Moderado po Carlos Fernandes, João Ferreira e Ricardo Blanco. O Blo tem por principal objectivo a promoção da animação nacional e internacional. Há ainda espaço para a divulgação de eventos. O Blog é actualizado com frequência e recomenda-se!

O TURNO DA NOITE
http://www.turno-da-noite.blogspot.com
Blog do Filme “O Turno da Noite”. Este blogue é uma espécie de viagem pelo "making off" do filme. Prsenteia-nos com imansas imagens, fruto da evolução do projecto.

EM BICOS DE PÉS
http://bicosdepes.blogspot.com
Blog do filme "Em Bicos de Pés", de João Ferreira. O Blog presenteia-nos com imagens de estudos de personagens e cenários. é actualizado regularmente.

IMAGINÁRIO FREEVLOG
http://imaginario-freevlog.blogspot.com
Imaginário Freevlog é um videoblog. Contém vários clips de video que podem ser visualizados se possuir o Quick Time instalado no seu computador. É actualizado regularmente.

Referências Bibliográficas

Para todos os profissionais, amantes e curiosos do género ficam aqui algumas referências bibliográficas.

BIBLIOGRAFIA GERAL:

MATOS - CRUZ, José de, Prontuário do Cinema Português 1896 - 1989, Lisboa, Cinemateca Portuguesa.
[Prontuário com várias entradas de filmes]

PINA, Luís de, História do Cinema Português, Mem Martins, Publicações Europa América, 1986.
[História do cinema português, não há nenhuma referência específica ao cinema português de animação]

RIBEIRO, Félix, Filmes, Figuras e Factos do Cinema Português 1896-1949, Lisboa, Cinemateca Portuguesa, 1983.
[Encontramos neste livro referências ao filme "A Lenda de Miragaia" e a "Quim e o Manecas"]

BIBLIOGRAFIA ESPECÍFICA:

BENDAZZI, Giannalberto, Cartoons: One Hundred Years of Cinema Animation, Londres, John Libbey, 1994.
[Esta obra é uma excelente "enciclopédia" do Cinema Mundial de Animação, contém referências a autores portugueses, nomeadamnete a Ricardo Neto e a Artur Correia]

GAIO, António, História do Cinema Português de animação – Contributos, Porto, Ed. Porto 2001, 2001.
[Este livro presta, como o próprio autor indica, alguns contributos para a compreensão da história do cinema português de animação, faz uma passagem por alguns períodos da história da Animação, apresenta ainda depoimentos de individualidades do cinema, assim como uma espécie de dicionário de autores de fácil consulta]


CASTRO, Ilda, Animação Portuguesa – conversas com, Lisboa, Ed. Câmara Municipal de Lisboa, 2003.
[Esta obra é uma compilação de entrevistas realizadas a personalidades do Cinema Português de Animação, é uma excelente fonte de informação, pois contém as filmografias completas de alguns autores]


ALMEIDA, Virgílio e RIBEIRO, José, A Suspeita – os bastidores do filme, Lisboa, Bedeteca de Lisboa, 2001.
[É um livro para quem gosta de cinema de animação e para quem quer descobrir o processo de produção. Apresenta-nos diversas imagens do processo criativo da criação do filme]


CATÁLOGOS

Existem vários catálogos de mostras de curtas na Videoteca de Lisboa, alguns apresentam entrevistas, outros têm apenas referências aos filmes. Encontram-se em PDF e pode-se facilmente efectuar o seu download atravésa da página oficial em www.videotecalisboa.org

Curtas 1999, Lisboa, Videoteca Municipal de Lisboa

Curtas Metragens Portuguesas 2000, Lisboa, Videoteca Municipal de Lisboa

Curtas Metragens Portuguesas 2001, Lisboa, Videoteca Municipal de Lisboa

Curtas # 5 - 2003, Lisboa, Videoteca Municipal de Lisboa

6ª Mostra de Curtas 2005, Lisboa, Videoteca Municipal de Lisboa


Na realização deste blog recorri, não só ás obras que refiro acima, mas à ajuda de algumas pessoas, que carinhosamente me apoiaram e continuam a apoiar na construção deste espaço.
Ficam aqui registados os meus agradecimentos ás seguintes pessoas:

Dra. Anabela Moutinho (Cineclube de Faro)

Dr. Frederico Lopes (Universidade da Beira Interior)

Dr. Francisco Paiva (Universidade da Beira Interior)

Dr. Eduardo Camilo (Universidade da Beira Interior)

Rui Cunha (Aluno de Eng. Informática na UBI)


Fica ainda um agradecimento especial a Marina Estela Graça e a Paulo Cambraia pelo desvelo com que trataram, e continuam a tratar este trabalho.

A todos os que colaboraram o meu sincero obrigado.




Reflexões II - O Filme de Autor

O filme de autor tem, na história do cinema português de animação, um percurso bastante curioso, se por um lado a história do cinema português de animação se inicia com o filme de autor (são exemplo disso o “Pesadelo de António Maria” 1923 e “A Lenda de Miragaia” (P:1930, E:1931), por outro, é na publicidade que se vão encontrar as principais referências do género, até 1970, quando surge o filme “Eu quero a Lua” (P: ?, E:1971), pela mão de Artur Correia.
A partir de 1970 podemos verificar a ascensão, ainda que gradual, da produção de obras de autor, tendo, em 2003 sido produzidas cerca de 13 obras em Portugal [1].
É no entanto curioso este percurso que o filme de autor faz: surge com os pioneiros e depois é colocado em parêntesis durante cerca de 30 anos, ganhado a partir de 1970 uma nova força.

Vejamos, no início do século XX (1923-1945), aquando o surgimento de “O Pesadelo de António Maria” ou de “ A Lenda de Miragaia”, vivia-se um contexto económico-social muito diferente do actual. O Cinema tinha acabado de nascer, vivia-se num ambiente de novidade e inovação, era natural que os mais curiosos, e também endinheirados, pudessem experimentar as maravilhas da animação. Assim estes filmes de autor surgem num panorama experimental. Explorava-se o novo universo que era a animação, as técnicas utilizadas eram muito primárias e existia ainda uma escassez muito grande de material[2], os realizadores experimentavam por puro prazer e divertimento.
Com o filme publicitário (antes do advento da televisão) já não se passava o mesmo, devido ao seu carácter de difusão comercial, apresentava um objectivo bem delineado: a venda do produto que anunciava! Eram filmes destinados a passar nas salas de cinema, nos intervalos ou antes das sessões. Os filmes eram produzidos de um modo bastante curioso e singular, o que, de certo modo salvaguardou a liberdade artística dos autores dos filmes.
Eram realizados “à priori”, ou seja antes da marca ou empresa encomendar qualquer tipo de publicidade. Depois de concluído, o filme era apresentado à empresa, e esta podia aceitar, ou não o anúncio publicitário. Os animadores encontraram assim uma forma de exercerem a sua actividade, preservando a sua liberdade artística.
Quando surge a televisão surge também uma “mini indústria” do cinema de animação. A animação descobre que vive melhor do filme animado publicitário, pois este era uma fonte de rendimento, o volume de encomendas era maior e assim os estúdios podiam produzir, os realizadores podiam fazer aquilo de que mais gostavam, sendo renumerados por isso, no entanto esta é uma situação que não agrada a muitos autores.
Os estúdios abrem por toda a aparte e há trabalho. Esta situação manteve-se num espaço de aproximadamente 20 anos (1960-1980). Em 1980 a indústria da animação começa a decair devido à crise nacional, associada à transformação e reestruturação de todo o sistema publicitário. Não nos podemos esquecer de que é na década de 80 que surgem as multinacionais, grandes empresas/grupos de publicidade, que acabam por esmagar produtoras mais pequenas, que ou são compradas pelas multinacionais, ou se reestruturam em pequenos ateliers. Estas multinacionais acabam por comprar um maior número de espaço comercial nas televisões o que provoca uma procura menor por parte de outras empresas deste espaço e sub consequentemente a produção de filme publicitário animado diminui. A própria ideia de publicidade modifica-se. Os criativos passam a trabalhar com uma equipa formada: doutorados, psicólogos, assessores de marketing. Isso faz com que muitas vezes o filme de imagem real seja escolhido em detrimento da animação, remetida na maior das vezes para o filme publicitário infantil[3].
No entanto, com a criação do IPC em 71 e do Cinanima em 77, desenvolvem-se várias estruturas que viriam a influenciar de modo positivo o cinema de animação, possibilitando assim o ressurgimento do filme de autor. Hoje o cinema português de animação vive mais do filme de autor do que da publicidade, no entanto, continuam a existir produtoras de animação em Portugal que trabalham não só com filmes de autor, mas com anúncios publicitários animados.


[1] Dados obtidos no ICAM (obras financiadas por esta instituição)

[2] Mário Neves, realizador de animação conta, em entrevista a Ilda Castro, que muitas das suas máquinas eram criadas por ele, desenhadas e enviadas a serralheiros para construção.

[3] É possivel que com as novas políticas de publicidade o filme de animação passe a publicitar produtos dirigidos para o publico infatil.
Se verificarmos as encomendas de trabalhos de animação encontramos anunciados muitos produtos infantis, como chocolates, cromos, pastilhas, gelados...
O "Vitinho", personagem criada pela marca Milupa, é um bom bom exemplo de estratégia de marketing.

terça-feira, julho 11, 2006

Realizadores II - Armando Servais Tiago

DADOS BIOGRÁFICOS
Nome Completo: Armando de Almeida Servais Tiago
Data de Nascimento: 16 de Junho de 1925
Naturalidade: Lisboa
Nacionalidade: Portuguesa


FILMOGRAFIA
Brevemente

Armando de Almeida Servais Tiago é um nome de destaque no cinema português de animação. Descobre o filme animado muito cedo, aos doze anos, na casa de um amigo, onde, através de um “aparelho popular para a película de 9,5mm…” lançado pela Pathé-Baby, viu pela primeira vez “A cigarra e a Formiga”. Ficou de tal modo apaixonado pelo desenho animado que começou logo a experimentar: fez flipbooks e filmes coloridos pintados à mão, em película velha que comprava aos cinemas. A temática era quase sempre belicista, “imitava documentários de guerra, bombardeamentos” e depois passava esses filmes numa máquina de manivela para crianças, que também projectava. A sua paixão leva-o a estar em contacto com vários amadores do cinema, e depois de algum tempo surge, em 1939, uma proposta de Álvaro Antunes para lhe financiar o filme “Automania” (1943) [1], que viria a vencer várias competições, tendo ganho o prémio Galo de Ouro da Pathé-Baby, o Troféu Ferrania e a Taça do Melhor Filme do Concurso Nacional de Cinema de Amadores.
Em 1946 Servais Tiago começa a trabalhar nos estúdios Kapa, onde adquiriu conhecimentos mais profundos sobre a técnica de animação. Fez vários filmes publicitários, dos quais se destacam “Perfumes Kimono” (1946) e “Malhas Locitay” (1946), realizou ainda no estúdio Cineca os primeiros filmes de animação a cores em Portugal: “Tricocida” (1955) e “ Grandella” (1956).


[1] Armando Tiago inicia a produção de "Automania" com apenas 14 anos de idade. O filme é profundamente marcado pelo grafismo "disneyano".
Existem dois exemplares do filme depositados no ANIM.
Dtado de 1943, este é o filme português de animação original mais antigo, completo e em bom estado. [dados fornecidos por Paulo Cambraia]



Nota:
Este post foi escrito tendo por base uma entrevista efectuada por Ilda Castro ao realizador Armando Servais Tiago.